Sabia que a saúde intestinal é um elemento-chave para um corpo equilibrado?
Já alguma vez sentiu um aperto no estômago antes de uma reunião importante? Ou “borboletas na barriga” quando está perante uma situação de grande entusiasmo? Se respondeu que sim, saiba que estas sensações não são apenas figuras de estilo. Elas são a prova física e imediata de que o seu corpo não funciona em compartimentos isolados.
Durante muitos anos, a ciência olhou para a digestão, as emoções e as defesas do organismo como departamentos independentes. Hoje, sabemos que isso não podia estar mais longe da verdade. Digo várias vezes em consulta aos pacientes que o intestino, o cérebro e o sistema imunitário estão interligados e comunicam de forma permanente entre si e é a qualidade dessa “conversa” que dita, em grande parte, a forma como nos sentimos, a energia que temos e/ou a nossa capacidade de combater doenças.
Mas como é que tudo isto está tão ligado, me questionam.
Na verdade, existe um universo dentro de si que a maioria das pessoas nunca aprendeu a conhecer: o intestino. Nele habitam muitos milhões de microrganismos (entre bactérias, fungos e vírus) que formam aquilo que chamamos microbiota intestinal. Este ecossistema não é apenas responsável pela digestão. Vai além disso e é também um dos pilares mais determinantes da sua saúde imunitária e do seu equilíbrio emocional.
Quando percebemos esta tríade – intestino, imunidade e mente -, deixamos de tratar sintomas isolados e passamos a olhar para o corpo como aquilo que ele realmente é: um sistema profundamente interligado.
O intestino… o quartel-general da imunidade
Se acha que o seu sistema imunitário está espalhado de forma homogénea pelo corpo todo, está errado/a. Aproximadamente 70% a 80% das células imunitárias do nosso organismo encontram-se no intestino.
A parede intestinal funciona como uma barreira altamente seletiva: deixa passar os nutrientes de que precisamos e bloqueia tudo o que são substâncias nocivas, bactérias patogénicas e toxinas.
Quando temos uma flora intestinal íntegra e saudável e a microbiota equilibrada, o sistema imunitário responde de forma proporcional e eficaz. Mas quando há disbiose, ou seja, um desequilíbrio na composição da microbiota, essa barreira fica, obviamente, fragilizada e o intestino torna-se permeável. Significa isto que deixa passar toxinas para a corrente sanguínea e o sistema imunitário ativa respostas inflamatórias crónicas, ficando enfraquecido e incapaz de combater infeções comuns, como gripes e constipações, alergias, doenças autoimunes, infeções recorrentes e fadiga persistente.
O eixo intestino-cérebro: uma conversa constante
Intestino e cérebro estão em comunicação contínua e bidirecional através do nervo vago, do sistema nervoso entérico, de hormonas e de moléculas produzidas pela própria microbiota. A este canal de comunicação dá-se o nome de eixo intestino-cérebro.
O intestino produz mais de 90% da serotonina do corpo (o neurotransmissor diretamente associado ao humor, ao sono e à sensação de bem-estar), bem como cerca de 50% da dopamina. Isto significa que o estado da sua microbiota influencia, de forma concreta e mensurável, a forma como se sente emocionalmente.
Estudos recentes mostram associações entre a disbiose intestinal e condições como a ansiedade, a depressão e o burnout. Não é coincidência que pessoas com perturbações do humor relatem com frequência queixas digestivas (como distensão abdominal, intestino irritável, trânsito irregular, entre outros). Intestino e cérebro partilham o mesmo sofrimento.
No fundo, a desregulação intestinal pode originar um ciclo vicioso (ou, por oposição, virtuoso). Se o stress diário afeta a digestão e altera a flora intestinal, esse desequilíbrio vai prejudicar a barreira intestinal, que vai ativar o sistema imunitário e provocar uma inflamação. Essa inflamação, por sua vez, viaja até ao cérebro, aumentando a sensação de fadiga e agravando a ansiedade, o que gera ainda mais stress.
Como nutrir o intestino, a mente e a imunidade?
Cuidar da saúde intestinal não exige mudanças radicais, mas sim consistência em escolhas diárias. Aqui ficam algumas formas de contribuir para a saúde desta tríade sagrada do nosso corpo:
- Aposte na diversidade vegetal: quanto mais variada for a sua alimentação à base de plantas (vegetais, frutas, leguminosas, sementes e frutos secos), mais diversa será também a sua microbiota, que é sinónimo de resiliência imunitária;
- Reforce o consumo de prebióticos: ou, por outras palavras, ofereça alimento às boas bactérias (os probióticos). Os prebióticos são fibras alimentares não digeríveis, essenciais para a saúde da microbiota, que incluem insulina, fruto-oligossacarídeos (FOS) e amido resistente. Alimentos como alho, cebola, espargos, aveia e banana verde são excelentes exemplos de alimentos ricos em prebióticos.
- Aposte em alimentos fermentados: como iogurte natural, kefir, chucrute ou kimchi, são bons para reforçar as populações de bactérias protetoras;
- Reduza o açúcar e os ultraprocessados: dietas ricas em açúcar refinado, ultraprocessados e pobres em fibra empobrecem a microbiota;
- Mastigue com calma: a digestão começa na boca e o ritmo da refeição influencia tudo o que acontece depois. Comer em estado de alerta ou olhar para o telemóvel desliga a capacidade do corpo de digerir e absorver nutrientes corretamente;
- Descanse e movimente-se: cortisol elevado altera diretamente a composição da microbiota, criando um ciclo vicioso entre stress mental e inflamação intestinal. Por isso, lembre-se, se dormir 7 a 8 horas por noite, é o que o corpo precisa para reparar a barreira intestinal e consolidar as defesas imunitárias. Fazer exercício físico regular ajuda a reduzir o cortisol (a hormona do stress) e estimula o trânsito intestinal. Os dois juntos fazem maravilhas pelo seu bem-estar.
Um olhar integrado sobre a saúde
A ciência tem vindo a confirmar aquilo que a nutrição integrativa defende há décadas: não existe saúde mental sem saúde intestinal, nem imunidade robusta sem uma microbiota diversa e equilibrada.
Cuidar do intestino não é apenas sobre evitar o inchaço abdominal ou regular idas à casa de banho. É, isso sim, uma das formas mais poderosas de cuidar da nossa saúde mental e de garantir que o nosso corpo tem a armadura necessária para nos proteger. Lembre-se: cuidar da base é permitir que tudo o resto floresça.

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